Como formar discípulos hoje?

Como formar discípulos hoje?

Dissemos, no último Domingo, que o fim da formação cristã é a identificação com Jesus, o Filho de Deus. O texto de hoje, como o do Domingo passado, mostra-nos bem o carácter de Jesus que somos chamados a viver: «Sede misericordiosos como o vosso pai é misericordioso». Jesus viveu tudo isto na perfeição. E nós somos convidados a deixar-nos transformar pelo seu Espírito à sua imagem.

No último Domingo apresentámos 4 aspetos que Jesus viveu e com os quais formou os seus discípulos, a saber: a abertura pessoal ao Espírito Santo, o alimento das escrituras, a relação aos outros e o ter em conta os acontecimentos. Vamos ver um por um.

A Abertura pessoal ao Espírito Santo
Nós ainda valorizamos demasiado pouco a ação do Espírito Santo na obra da nossa configuração a Cristo ou da nossa santificação. Estamos à vontade com a ideia do Espírito Santo, mas não com a experiência do mesmo Espírito. Mas é a experiência do Espírito que nos faz avançar na vida cristã e na santidade, que são a mesma coisa. Sem o Espírito, nada acontece. Jesus prometeu-nos o Espírito Santo não só para os momentos grandes da nossa vida, mas para vivermos sempre cheios d’Ele. Por isso, Jesus diz-nos para O pedirmos insistentemente, «Pedi e recebereis, procurai e achareis… porque se vós que sois maus sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o pai do céu não dará o Espírito Santo àqueles que lho pedem».( Lc 11,13). O Espírito de Deus age em nós e connosco para nos tornar semelhantes a Cristo. S. Paulo diz: «E nós todos que, com o rosto descoberto, refletimos a glória do Senhor, somos transfigurados na sua própria imagem, de glória em glória, pelo Senhor que é Espírito» (2 Cor 3, 18). Quer dizer, quando nos abandonamos ao sopro do Espírito e nos deixamos conduzir por Ele, o Espírito torna-se como um exímio escultor que, de cinzel na mão, pega na pedra dura que somos e pacientemente a vai esculpindo até aparecer uma bela imagem do Senhor. Claro que estamos a falar do carácter, e27 não da figura física.

Não chega ter sido batizado, confirmado, nem mesmo ter vivido uma experiência de abertura ao Espírito Santo num retiro ou num outro tempo de graça. Precisamos de estar continuamente cheios do Espírito Santo, como diz Paulo na carta aos Efésios: «Não vos embriagueis com vinho, que leva à vida desregrada, mas deixai-vos encher do Espírito» (Ef 5,18). Assim como não podemos deixar de respirar, temos também necessidade incessante do Espírito Santo.

Embora já tenhamos feito nas paróquias vários percursos para fazer a experiência do Espírito Santo, temos de fazer mais, até que grande parte das pessoas compreenda a importância de suplicar constantemente o dom do Espírito na oração pessoal e comunitária, nos sacramentos e em todas as situações concretas da vida, e aprender a viver conduzido por Ele.

Nas paróquias fomentamos o acolhimento do dom do Espírito através do fim de semana Alpha e dos percursos para a Efusão do Espírito que já temos feito várias vezes e que devemos continuar a proporcionar ao ritmo de um por ano.

Ancorar-se na Palavra de Deus
Temos reparado que quem faz um percurso Alpha, onde há um tema sobre a Bíblia, deixa os participantes muito curiosos em conhecer mais sobre o livro mais vendido no mundo desde sempre e em todos os anos. Porque é que, mesmo agora, em tempos de secularismo, se editam mais de cem milhões de Bíblias por ano e tantas vezes fica esgotada?

Os percursos na nossa UP que mais inscrições têm são os bíblicos. Uns querem conhecer a Bíblia por curiosidade e para conhecerem um pouco mais, outros querem saber como se alimentar dela quotidianamente para a pôr em prática.

Nas Células de Evangelização, os ensinamentos semanais partem sempre todos de textos bíblicos, a lectio divina do Advento e da Quaresma que a Diocese publica, tem como fim ajudar o povo de Deus a alimentar-se da escritura. Jesus chama bem-aventurados aos que escutam a palavra de Deus e a põem em prática, como faz Maria sua mãe.

Criámos um percurso anual sobre a Bíblia que começou com S. Mateus, depois interrompido pela pandemia, e agora estamos com S. Lucas, para no próximo ano fazermos um sobre S. Marcos e depois S. João e o resto do Novo testamento. Mas, embora a compreensão dos textos seja muito importante, o mais importante, porém, é que eles se tornem alimento e luz para a nossa vida. A Palavra de Deus escrita na Bíblia, e aquela que Ele continua a escrever nos nossos corações, pelo seu Espírito, devem ser a norma do nosso viver.

Ocasiões para escutar a palavra de Deus
a) 1º contacto com a palavra de Deus: Percurso Alpha (3 meses)
b) Percurso sobre um evangelho (6 meses)
c) Células paroquiais de evangelização (frequentada por 130 pessoas semanalmente) duradouro…
d) Grupo de oração em S. João Baptista(quinzenal)
e) Lectio Divina no Advento e na Quaresma (sazonal)
f) Percurso Timóteo de catequese de adultos. (semanal)
g) E naturalmente as Eucaristias dominicais e também as diárias.

A relação aos outros.
Deus utiliza a relação com os outros, em particular no seio da comunidade cristã, para nos fazer crescer na fé, e sublinho três modalidades principais: o testemunho dos outros, o amor que recebemos, as palavras de encorajamento e o reconhecimento.

O testemunho dos outros – vive-se de três modos. O testemunho pela palavra, nas relações interpessoais, serões Alpha, homilias e outras ocasiões em que se toma a palavra. O testemunho da vida quotidiana dos outros cristãos. Paulo diz aos Coríntios: «Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo» (1 Cor 16,1) e o testemunho do que a comunidade no seu conjunto vive.

O amor fraterno – o amor que recebemos nas relações interpessoais na comunidade cristã é um sinal de que o amor de Deus nos precede. Este amor recebido dá-nos confiança. Ajuda cada um a exercer os seus dons e a crescer. Este amor é uma graça a receber e um apelo a dar daquilo que recebemos.

A Margarida (nome fictício) chegou à paróquia sentindo-se uma nulidade. A família sempre lhe tinha dito que ela nunca seria nada nem ninguém. Ela desistiu de si mesma. Fez o Alpha, foi acompanhada depois por uma irmã da paróquia que lhe foi mostrando que ela tinha dons e capacidade de se dar. Foi ganhando confiança, arranjou um emprego, e, embora ainda haja muitas feridas do passado a curar, já leva uma vida normal e já dá aos outros muito do que recebeu.

A palavra dos outros – o povo diz que “palavras leva-as o vento”, mas, pelo contrário, muitas vezes ficam bem guardadas na nossa memória para o bem e para o mal. As palavras que dizemos uns aos outros têm um grande poder construtivo ou destrutivo, conforme são palavras que edificam e encorajam ou palavras que humilham e destroem. Se vivemos o amor fraterno, temos de ser agradecidos aos irmãos pelos seus dons e reconhecer tudo o que fazem pela comunidade e por nós próprios. Os responsáveis dos grupos devem estar constantemente a dar sinais de reconhecimento para inspirar confiança e para entusiasmar os pequenos esforços de cada um.

Os acontecimentos
Deus utiliza os acontecimentos como um dos meios para nos tornar mais semelhantes a Cristo. Utiliza, evidentemente, as nossas alegrias, mas também as nossas dificuldades para nos transformar em profundidade. Na sua carta aos Romanos, em 8,28-29, S. Paulo explica-nos a razão: “Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados, de acordo com o seu desígnio, conforme o seu plano de que sejamos uma imagem idêntica à do seu filho”. Paulo não diz que tudo é bem, mas que Deus vai utilizar tudo o que nos acontece para o nosso bem e o nosso crescimento, na medida em que O colocamos como o centro da nossa vida. Foi uma grande angústia para uma irmã ver partir o seu marido de casa, abandonando a esposa, mas depois fez Alpha, encontrou o Senhor, e começou a viver toda a sua vida com o Senhor. Todos os dias, com os filhos, oravam em família e tornou-se uma família muito unida a ponto de os filhos um dia dizerem à mãe: “Foi mal o pai se ter ido embora, mas acabou por se tornar um bem para que todos puséssemos Deus no centro da nossa vida e fossemos mais felizes.” Acho que cada um de nós tem uma história onde um grande sofrimento acabou por se tornar uma grande graça de crescimento interior e de enraizamento no Senhor Jesus.

Em conclusão, os diferentes meios que Deus emprega para nos formar e nos transformar – o Espírito Santo, a Palavra de Deus, os irmãos que nos circundam e os acontecimentos – conduzem-nos muto naturalmente a nos colocarmos ao serviço uns dos outros.

Terminaremos no próximo Domingo.

Pe Jorge Santos

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