O Serviço (continuação)

O Serviço (continuação)

A Palavra de Deus orienta-nos para o serviço. Depois do Pentecostes em Jerusalém, dá-se uma transformação nos discípulos e em todos os que receberam o dom do Espírito Santo: já não procuram ser os primeiros, como antes faziam, mas, ao contrário, partilham os seus bens para os pôr ao serviço de todos (At 2,42). Uma passagem dos Atos conta-nos o início da institucionalização do serviço na Igreja. No princípio são os próprios Apóstolos que tomam a seu cargo a instituição dos órfãos e das viúvas – as pessoas mais desprotegidas da comunidade – encarregando-se, eles mesmos, das refeições e do serviço às mesas. Ficam, porém, de tal forma absorvidos com esse trabalho que deixam de ter tempo para a missão de anúncio da Palavra. Decidem então delegar essa responsabilidade a outras pessoas por quem rezam, impondo-lhes as mãos, para que recebam o Espírito Santo para essa missão, instituindo assim os diáconos.

S. Paulo convida todos os cristãos de Corinto a colocarem-se ao serviço uns dos outros em função dos dons recebidos por cada um, e isto para a construção do Corpo de Cristo do qual todos fazemos parte pelo batismo. Como ouvimos hoje, na segunda leitura: “Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos batizados num só Espírito, para constituirmos um só corpo.» E depois continua: Mas o corpo não tem um só membro, mas muitos. «Vós sois corpo de Cristo e seus membros.» Não fazemos todos a mesma coisa, assim como os olhos não fazem o mesmo que os ouvidos e as mãos não fazem o mesmo que os pés, fazemos coisas diferentes, mas ao serviço do bem do mesmo corpo, para que o corpo funcione de modo saudável. Como chamamos a um corpo a que falte um pé? E àquele a que falta um olho ou dois? E ao a que falta o ouvido? No Corpo de Cristo, se eu falto com a minha presença e colaboração, torno o corpo deficiente. E quando são muitos membros que faltam, então o corpo fica visivelmente deformado e não se torna atraente.

Na Carta aos Efésios, Paulo diz que «a cada um é dada a graça segundo a medida do dom de Cristo» – quer dizer que Deus dá-nos um dom e a graça para exercermos esse dom logo que o colocamos ao serviço. No entanto, enquanto não começarmos a servir, não experimentamos a graça que nos é dada. Paulo explica depois que todos os dons são dados “em ordem a preparar os cristãos para uma atividade de serviço para a construção do corpo de Cristo, até que cheguemos todos à unidade da fé e do conhecimento do filho de Deus, ao homem adulto, à medida completa da plenitude de Cristo”. Quer dizer, o serviço, segundo os dons recebidos, faz-nos crescer na fé, identificando-nos cada vez mais com Cristo, até chegarmos à plenitude da identificação com Cristo. Que belo, não acham?

Que diz a Igreja sobre o serviço dos leigos?

O Concílio Vaticano II afirma: “Os leigos, sejam quais forem, todos são chamados a concorrer como membros vivos, com todas as forças que receberam da bondade do Criador e por graça do Redentor, para o crescimento da Igreja e sua contínua santificação.” (LG 2)
Vinte cinco anos mais tarde, o Papa João Paulo II lembrou esta passagem do Concílio, dizendo que os pastores não têm de fazer todo o trabalho mas que uma parte da sua missão é de discernir os dons de cada um para que participem na missão comum: «Os Pastores (…) sabem que não foram instituídos por Jesus Cristo para se encarregarem por si só de toda a missão salvadora da Igreja para com o mundo, mas que o seu cargo sublime consiste em (…) reconhecer os seus serviços e carismas, para que todos, cada um segundo o seu modo próprio, cooperem na obra comum» (CFL 32).

O leigo é, pois, chamado a exercer um serviço, mas não qualquer um, apenas o que corresponde aos dons recebidos de Deus.
Uma parte importante da missão dos pastores é discernir os dons dos membros da comunidade cristã e de lhes confiar os serviços de acordo com os seus carismas, amparando-os e encorajando-os no exercício do serviço que lhes foi confiado. Esta missão específica do padre, não podendo ser delegada, pode e deve, no entanto, ser feita de modo plural. Isto é, o padre não tem sozinho o dom do discernimento dos carismas. Ele não é, ao mesmo tempo, apóstolo, profeta, evangelista, pastor e mestre, mas o seu ministério deve conter um pouco disto tudo. Mas, se ele próprio é limitado, como pode ele responder a um ministério tão exigente? Pode, desde que associe ao seu ministério uma equipa de leigos que o complemente nos seus limites. A equipa de animação pastoral tem esta função de ajudar o padre no seu ministério.

Esta equipa, que deve conhecer bem as pessoas e a realidade da paróquia, deve ser também ela o mais plural possível para ajudar o pároco a reconhecer os carismas presentes e visíveis na vida de tantos paroquianos para os incitar a pôr ao serviço os dons que Deus lhes confiou.
O Papa Bento XVI encorajou a corresponsabilidade de todos os membros do povo de Deus. «Isto exige uma mudança de mentalidade (. ..) a fim de não mais considerar os leigos como colaboradores do clero mas de os reconhecer efetivamente como corresponsáveis do ser e do agir da Igreja (Bento XVI, Abertura do Congresso Eclesial da Diocese de Roma, 26 maio 2009).

Logo que foi Papa, Francisco denuncia o clericalismo que é um travão à responsabilização dos fiéis. Na maioria dos casos, trata-se de uma cumplicidade pecadora: O padre clericaliza e, o leigo, pede para ser clericalizado, porque assim é mais fácil para ele. (Papa Francisco aos bispos da Celam, Julho de 2013)

Assim, a Igreja, pela voz do magistério, encoraja os pastores e os fieis a tomar cada um a sua parte de responsabilidade no serviço da comunidade cristã, em função dos talentos e dos dons dados por Deus a cada um e das necessidades da comunidade cristã em que se vive.

Pe Jorge Santos

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