Folha Paroquial nº 177 *Ano IV* 20.06.2021 — DOMINGO XII DO TEMPO COMUM

Folha Paroquial nº 177 *Ano IV* 20.06.2021 — DOMINGO XII DO TEMPO COMUM

Cantai ao Senhor, porque é eterno o seu amor.

A folha pode ser descarregada aqui.

“EVANGELHO (Mc 4, 35-41)
Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse aos seus discípulos: «Passemos à outra margem do lago». Eles deixaram a multidão e levaram Jesus consigo na barca em que estava sentado. Iam com Ele outras embarcações. Levantou-se então uma grande tormenta e as ondas eram tão altas que enchiam a barca de água. Jesus, à popa, dormia com a cabeça numa almofada. Eles acordaram-n’O e disseram: «Mestre, não Te importas que pereçamos?». Jesus levantou-Se, falou ao vento imperiosamente e disse ao mar: «Cala-te e está quieto». O vento cessou e fez-se grande bonança. Depois disse aos discípulos: «Porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?». Eles ficaram cheios de temor e diziam uns para os outros: «Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe obedecem?».”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

PASSEMOS PARA A OUTRA MARGEM

Jesus é quem tem a iniciativa de fazer embarcar os discípulos para atravessar o lago para a outra margem. Em Marcos, não se explica a razão daquela mudança de lugar mas, em Mateus, a narrativa explica que a partida é devida à presença de “numerosas multidões” (Mt 8,18). Depois de acalmar a tempestade, Jesus e os discípulos devem chegar à região dos Gadarenos ou dos Gerasenos, ou seja, uma região pagã da Decápole.

Há uma solução simples e eficaz para evitar a tempestade: ficar na margem onde se está. Ficar na mesma margem é mais seguro, não se assumem riscos. Na margem que conhecemos bem, os dias sucedem-se e assemelham-se. É verdade que há altos e baixos, mas ao menos dominamos os acontecimentos, sabemos como os enfrentar porque os fazemos desde sempre. Por isso tanta gente tem tanta dificuldade em aceitar as mudanças na Igreja. Mas aí, nessa barca, não estamos seguros de nada. O tempo muda rapidamente e não sabemos nunca o que vai acontecer, não podemos nada prever e programar e isso cria-nos desconforto e insegurança. O que é seguro e certo é que a vida não é a mesma na margem onde estou e na barca! E Cristo diz-nos: abandonemos o território familiar para nos dirigirmos a lugares que não conhecemos ou que não nos são habituais e nos fazem sentir inseguros. Mas não estaremos sós, iremos com Cristo que está na nossa barca.

ELE DORME
Jesus durante o tempo da tempestade que faz? Dorme. Mas não está ausente. Ele é plenamente homem com os seus limites e necessidades humanas. Depois de um dia de pregação, logo que chegou a noite, Jesus quer afastar-se a multidão. Fatigado, procura repouso sobre uma almofada na parte de trás do barco. As vagas que sacodem o barco, e a tempestade que cresce, não são capazes de o acordar, de tal forma o seu sono é pesado e repousante. São os seus discípulos que têm de gritar-lhe aos ouvidos: “-Acorda.” Também para nós o silêncio de Deus não é nem um abandono nem uma rejeição, mas um mistério que conduz a contemplar Cristo para nos deixarmos transformar por Ele.

NÓS PERECEMOS
Desde sempre a tradição cristã viu nesta barca agitada pela tempestade uma imagem da Igreja. Quando Marcos escreve o seu evangelho, Pedro já tinha sido martirizado e a perseguição tinha dizimado a jovem comunidade romana. O «passemos para o outro lado» tinha sentido. Apesar da tempestade, a Igreja deve viver e crescer neste mundo pagão e deixar de pensar no mundo judeu-cristão tranquilizante. Século após século, depois de alguma bonança, a tempestade volta a exigir-lhe que passe para o outro lado. E este tempo que estamos a viver é um convite forte a abrirmo-nos a paisagens novas, sonharmos uma igreja a viver de forma muito diferente de há 50 anos atrás. E todo o nosso esforço está em que as comunidades cristãs se desinstalem e criem uma cultura missionária de serviço, de proximidade, de amor fraterno, de compromisso na transformação do mundo.

O AMOR DE CRISTO NOS IMPELE
Felizmente, desde há dois mil anos, são imensos os que deixam a margem da sua zona de conforto para embarcarem com Jesus. Não são aventureiros curiosos para descobrir o novo mundo. São discípulos que embarcam, não porque sejam corajosos e seguros de si mesmos, mas somente porque Jesus está na barca e lhes diz: «Ide por todo o mundo», para a outra margem. Mas também porque “o amor de Cristo os impele” quando contemplam o seu amor manifestado na sua morte na cruz. E nada nem ninguém os pode separar desse amor que Ele um dia lhes manifestou. Diz Paulo na segunda leitura: “Se alguém está em Cristo é uma nova criatura”. O mundo antigo passou, um mundo novo nasceu. Doravante já não estamos na primeira Criação. Falta-nos talvez compreender a medida da transformação que foi introduzida no mundo pela ressurreição de Cristo. O Cristão é alguém que diz: «Doravante»! Doravante nada é como antes. Há uma nova humanidade. Agora somos chamados a viver da vida do Ressuscitado, que é uma vida feita de solidariedade, de justiça e de partilha; doravante podemos viver como Cristo, tornar-nos uma imagem sua, vivendo uma vida ao serviço dos outros, como Ele fez. Somos capazes, doravante, de chorar com os que choram e de enfrentar os mesmos combates que Jesus e dominar todas as tempestades que nos assaltam, venham donde vierem, pois Ele está connosco tal como na manhã de Páscoa. Todo o cristão pode dizer como Paulo: «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.» Basta que, como diz a carta aos Hebreus, mantenhamos o nosso olhar fixo em Jesus, o autor da nossa fé.

A palavra “impossível” não é cristã, pois nada é impossível a Deus e a quem crê no seu amor poderoso.

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