Folha Paroquial 10.04.2022 — DOMINGO DE RAMOS

Folha Paroquial 10.04.2022 — DOMINGO DE RAMOS

Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?

A folha pode ser descarregada aqui.

EVANGELHO ( Lc 22, 14 até 23, 56 )
“Devido à sua extensão, o evangelho da paixão não consta da folha.”

 

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

“Entramos, nesta semana, na celebração do mistério central da nossa fé, o mistério pascal. Desde o início da Quaresma invocámos o Espírito Santo para que Ele nos ilumine na compreensão interior do mistério de Cristo enquanto o vamos seguindo no seu itinerário até à Páscoa.

Neste domingo, fazemos memória da entrada de Jesus em Jerusalém. O seu itinerário começou na Galileia e está a chegar ao fim. Hoje é a última etapa. Jesus chega ao Monte das Oliveiras e envia dois dos seus discípulos buscar-lhe uma montada.

Até agora, o Messias vivia como que escondido. Mas hoje entra triunfalmente como quem toma posse da cidade santa e do seu templo. Ele não entra em cima de um carro de combate, como o faria um chefe de um exército libertador, mas montado num pobre jumento. Mas nessa entrada é aclamado como Messias e rei pela multidão. Ramos de oliveira são espalhados durante a sua passagem proporcionando-lhe um tapete triunfal. Cheia de entusiasmo a multidão grita «Hossana» (ajudai-nos, em hebreu).

O mesmo Jesus entra hoje também nas nossas cidades e aldeias. Ele quer encontrar-se connosco no íntimo das nossas vidas. Apresenta-se como o único que pode libertar-nos dos nossos medos e prisões. O seu rosto não é o de um homem poderoso e forte. É o de um homem manso e humilde. Alguns dias mais tarde será a de um crucificado. A única coroa que será colocada na cabeça deste rei será uma coroa de espinhos.

Nós pregamos um Messias crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios, mas para os que são chamados, é o Cristo poder e sabedoria de Deus.

Depois de uma pandemia onde tanta gente morreu, onde não houve tempo de fazer o luto de muitos familiares apanhados de surpresa pela morte, surge agora uma guerra sangrenta que tocando a todos, traz sobretudo ao povo ucraniano angústia, lágrimas e desespero. Verdadeiramente vemos a cruz de Cristo plantada no país da Ucrânia. Muitos gritos angustiados poderão levantar-se naquela terra e em toda a parte: Onde estás, Deus? Não vês este povo a ser massacrado pelos ímpios? Nos salmos que iremos rezar durante a Semana Santa e que Jesus rezou no meio do seu sofrimento nós poderemos escutar a oração de um povo inteiro: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes? Como estais longe da minha oração e das palavras do meu lamento? Meu Deus, clamo de dia e não me respondeis, clamo de noite e não me prestais atenção.” (Sl 21) e ainda: “Senhor Deus, meu salvador, dia e noite clamo na vossa presença. Chegue até vós a minha oração, inclinai o ouvido ao meu clamor. A minha alma está saturada de sofrimento, a minha vida chegou às portas da morte. Sou contado entre os que descem à sepultura, sou um homem já sem forças. (Sl 87 2-5). E podíamos continuar.

E qual a resposta de Deus a este sofrimento? A mesma que para o seu Filho. Não é uma lição de moral, é o silêncio da cruz ao lado da nossa cruz. Ele próprio se faz crucificado ao lado dos crucificados. Fraco e impotente ao lado dos fracos e impotentes. Jesus experimenta o silêncio de Deus como tantos o experimentam hoje, os ucranianos e tantos doentes que pedem a Deus a sua cura no meio da angústia.

Ele sente-se abandonado por Deus, mas entrega-se na confiança e no abandono porque sentir é uma coisa e saber é outra. Ele sente o abandono, mas sabe que o Pai está com Ele e por isso se entrega nas suas mãos. “Pai, nas vossas mãos entrego o meu Espírito.” E quem se abandona a Deus nunca será confundido. Mas abandonar-se não significa sofrer com coragem, mas aceitar ter medo de sofrer, como Jesus teve. Abandonar-se é acreditar que aquele sofrimento será acolhido por Deus e não será um desperdício, é ter esperança de que Deus transformará esse sofrimento em glória.

Quanto gostaríamos mais de um Deus que usasse o seu poder e triunfasse sobre o mal obrigando os maus a renderem-se e destruindo o inimigo ameaçador! Eu próprio tantas vezes sou tentado pelo desejo de um Deus mais interventivo e diretivo contra o mal! E às vezes lhe digo que é por isso que tantos O abandonam e que os entendo. A um Deus triunfante que destruísse os maus, entendíamo-lo melhor. Mas o verdadeiro Deus é misterioso, e os seus caminhos não são os nossos. Jesus começou a sua vida pública com essa tentação do demónio: Mostra o teu poder, pois se és filho de Deus, podes fazer tudo o que quiseres e todos te baterão palmas, mas Jesus respondeu que não era esse o caminho de Deus.
Aos discípulos vai explicar bem: «O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas; tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia». ( Lc 9, 18-22)

Ser discípulo de Cristo, é tomar este caminho de humildade; acreditando que é o mais frutuoso mesmo se não o entendemos.

Como viver a semana santa

Vamos voltar para casa levando um ramo benzido. Este ramo lembrar-nos-á que cantámos: «Bendito o que vem em nome do Senhor». Deve também lembrar-nos que Jesus tem necessidade de que o acompanhemos na sua agonia. Tocado pela angústia e pela morte Ele quis que os seus amigos permanecessem com ele no jardim do Getsémani. É o mesmo apelo que ele nos faz nestes dias da paixão. Que este ramo que levamos connosco seja o sinal do nosso compromisso em permanecermos unidos à paixão do Senhor para chegarmos com Ele à ressurreição.

Ao longo desta Semana Santa somos convidados a mergulhar com Ele na oração. «Não pudestes vigiar comigo ao menos uma hora? Vigiai e orai para não cairdes em tentação ».
Acompanhemos Jesus na tarde de quinta-feira, na véspera da sua morte, e vamos com Ele ao Cenáculo para estarmos com ele na Ceia onde nos entregará o Seu Corpo e o seu Sangue e nos dirá «Fazei isto doravante em memória de Mim». Receberemos d’Ele o Mandamento Novo do amor para darmos testemunho de um caminho novo que Ele nos deixou.
Na sexta feira, acompanhemo-lo na sua paixão e ouçamos em adoração as palavras de amor e de confiança que brotam do coração do crucificado. Depois poderemos aproximar-nos da sua Cruz e meditando termos um gesto sensível de adoração à cruz, comungando depois Aquele que se entregou por nós. À noite, poderemos ainda meditar nos passos da paixão de Jesus através da Via Sacra que os jovens estão a organizar.

Finalmente encontrar-nos-emos na Vigília Pascal para celebrarmos a alegria da vitória Pascal. Aquele que esteve morto agora vive pelos séculos dos séculos e tem a chave da morte e do abismo.

Bem-vindos às celebrações maiores de todo o ano litúrgico. Vós que participais ao Domingo na missa não deixeis de participar no tríduo pascal onde nasce “o rio da vida” onde mergulhamos em cada Domingo. Vinde à fonte!

«Deus nosso Pai, que para dar aos homens um exemplo de humildade, quisestes que o nosso Salvador Se fizesse homem e padecesse o suplício da cruz, concedei-nos a graça de seguirmos os ensinamentos da sua paixão, para merecermos tomar parte na glória da sua ressurreição.»

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