Quaresma

Quaresma

Com a imposição das cinzas sobre as nossas cabeças, começámos humildemente a nossa caminhada quaresmal. Nesta celebração, respirámos de confiança e esperança! Depois de dois anos de pandemia, voltámos a ver as nossas igrejas da Unidade Pastoral completamente a abarrotar de gente e onde não havia qualquer espaço livre. Tudo foi ocupado. Também em S. João Baptista, duas horas mais tarde, se repetiu o mesmo fenómeno de igreja cheia, mas já não tão compacta.

Faço esta referência porque me parece que se sente nos fiéis um desejo de voltar a Casa, ao coração do Pai. É cansativa a vida fora de Deus! Ele é a nossa força, a nossa Paz, o nosso refúgio e salvação. Podemos tentar – e quantas vezes o fazemos – construir a nossa vida sobre a areia movediça das nossas inclinações e desejos, e viver à maneira dos pagãos, mas quem já experimentou o amor do Senhor e a doce alegria de viver com Ele, sabe que “não é a mesma coisa caminhar com Ele ou caminhar tateando, não é a mesma coisa poder escutá-Lo ou ignorar a sua Palavra, não é a mesma coisa poder contemplá-Lo, adorá-Lo, descansar n’Ele ou não o poder fazer. Não é a mesma coisa procurar construir o mundo com o seu Evangelho em vez de o fazer unicamente com a própria razão. Sabemos bem que a vida com Jesus se torna muito mais plena e, com Ele, é mais fácil encontrar o sentido para cada coisa. É por isso que evangelizamos.” (EG, nº266).

A frase escolhida pelo nosso bispo, D. Virgílio Antunes, para a sua mensagem da Quaresma diz: “Com humildade, levanta-te e volta para casa.” Talvez ele estivesse a pensar em todos os que deixaram de ir à casa da Igreja para celebrar a fé com medo do vírus ou por outras razões, mas também certamente porque em cada Quaresma é altura de um voltar de modo novo ao coração do pai. Todos somos filhos pródigos que se afastam do Pai, mas esta é a hora de O procurar de todo o coração, ou, dito com mais verdade, é a hora de nos deixarmos encontrar por Ele, pois a iniciativa é sempre d’Ele. Nós não O procurávamos se não fosse Ele a vir ao nosso encontro, a dar-nos o seu Espírito para termos sede d’Ele. A Quaresma é sempre um “tempo favorável à nossa salvação”. Nele se realiza de modo particular aquela palavra do livro do Apocalipse: «Estou à tua porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, Eu entrarei e cearei com ele e ele comigo.» (Ap 3,20)

Fazer Quaresma conduzido pelo Espírito
Perdoar-me-eis um testemunho pessoal. Durante muito tempo eu não gostava nada do tempo da Quaresma. Ligava-a só ao sacrifício, à penitência, à cruz, à renúncia, mas via isso tudo como uma conquista à custa do meu esforço e ascese pessoal. Mas como não sou dado a muita ascese e não sou de grande voluntarismo, chegado ao fim de cada Quaresma era sempre um desastre. Então a celebração da alegria pascal era mitigada pelo meu sentimento de não ter feito nenhuma Quaresma.

Pouco a pouco, fui compreendendo que a Quaresma não é isso, mas é um tempo de graça. E quando digo «graça» refiro-me à ação de Deus na nossa vida. É um tempo em que nos dispomos a estar mais vigilantes à ação transformadora do Espírito em nós e a colaborarmos com a sua graça para que Ele opere em nós as mudanças que nós, sozinhos, nunca faremos. E isso muda tudo.

Olhando para o evangelho de Domingo passado, podemos dizer que é o evangelho das tentações de Jesus, mas eu diria que é mais o Evangelho que nos mostra a ação do Espírito na vida de Jesus. O Espírito Santo, que tinha vindo sobre Jesus de uma forma sensível no seu batismo, condu-lo agora a uma Quaresma de 40 dias e 40 noites onde ele é provado com as grandes tentações do ser humano. Mas o que S. Lucas nos quer dizer bem alto é que Jesus não luta sozinho. É acompanhado, a partir de dentro, pelo Espírito que lhe dá força e discernimento para poder ver a presença do diabo. Tem consigo o alimento da Palavra de Deus que o fortalece e o ilumina.

Por isso, pensar a Quaresma como um tempo de práticas piedosas de boas obras que decido fazer para agradar a Deus e ser uma pessoa melhor pode ser um bom desejo mas, se for só isso, pode deixar-nos frustrados. Por onde devemos começar é por nos voltarmos para Deus, renovando a nossa união com Ele, suplicando ardentemente o sermos cheios do Seu Espírito, alimentando-nos da graça dos sacramentos. Imersos n’Ele, com a sua força, podemos então voltar-nos para Ele e dizer-lhe: “Senhor, humildemente te peço, ajuda-me a ser capaz de dar um pequeno passo para ti. Estende-me a tua mão paterna e materna e segura-me quando for tentado a desanimar. Sê a minha força, o meu entusiasmo e a minha alegria.”

Tenho vindo a falar nos pequenos passos: Que pequeno passo acho que o Senhor gostaria que eu fizesse neste tempo quaresmal? Podemos pedir-lho na oração. Cada um de nós leva consigo alguns apegos desordenados a coisas, a pessoas, a si mesmo, ou, então, sofre com um pecado ou fraqueza em que cai com frequência. Pois bem, entre na súplica. Peça com muita insistência ao Espírito que encha o seu coração do amor de Deus e da sua fortaleza para ser capaz de, com humildade, se erguer.

A quaresma não é o tempo em que nos voltamos para nós e para as nossas fraquezas que nos entristecem, mas é o tempo em que nos voltamos para o Deus que nos ama e que não nos falta com a sua graça e o dom do seu Espírito para darmos passos de liberdade. É por isso um tempo de alegria espiritual apesar de ser tempo de deserto, dificuldades e tentações. Mas é tempo de graça, de purificação que o Espírito realiza em nós.
Para que o Espírito esteja também connosco neste deserto quaresmal e nos fortaleça nas provações do caminho, deixo aqui uma bela oração de Santo Afonso Maria de Ligório:

Ó Espírito Santo, paráclito divino, Pai dos pobres, consolador dos aflitos, santificador das almas, eis-me aqui prostrado na vossa presença, eu vos adoro na mais profunda submissão, e repito mil vezes com os serafins que estão diante do vosso trono: Santo, Santo, Santo!

(…)Vós que enchestes de imensas graças a alma de Maria e inflamaste de um zelo santo o coração dos Apóstolos, dignai-vos também inflamar o meu coração com o vosso amor. Vós sois o Espírito divino, tornai-me forte contra o maligno; Vós sois um fogo devorador, acendei em mim o fogo do vosso amor; Vós sois uma luz, iluminai-me para que conheça as coisas eternas; Vós sois uma pomba, dai-me hábitos puros; Vós sois brisa suave e cheia de doçura, dissipai as tempestades que fazem erguer em mim as paixões; Vós sois uma língua, ensinai-me a maneira de Vos louvar sem cessar; Vós sois uma nuvem, cobri-me à sombra das vossas asas; Enfim, Vós sois o Autor de todos os dons celestes: Ah, eu vos suplico, vivificai-me pela vossa graça, santificai-me pela vossa caridade, orientai-me pela vossa sabedoria, Espírito de adoção filial, fazei-me sentir o amor do pai, e salvai-me pela vossa infinita misericórdia, afim de que não cesse de vos bendizer, de vos louvar, e de vos amar, primeiro sobre a terra, durante a vida, e depois no céu por toda a eternidade. Amen.

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