Despedidas ao Frei Domingos

Despedidas ao Frei Domingos

Numa altura em que se fala tanto da irrelevância da Igreja para a sociedade e perante os meios de comunicação social, a não ser quando é para explorar as podridões de alguns dos seus membros e sobretudo dos seus pastores, a partida relativamente inesperada do Frei Domingos, presente na nossa cidade e diocese há uns 16 anos, deu muito que falar e fez capas de jornais: era um homem bom “para quem era lícito curar ao sábado”: pode “não ter amado perfeitamente, mas amou muito”.

Desde políticos a pessoas que por qualquer motivo se destacam na sociedade, muitos foram aqueles que, na nossa cidade, fizeram questão de publicamente expressarem o seu pesar por esta partida tão inesperada e aos olhos do mundo injusta (o frei preparava-se para um ano sabático, de descanso e estudo).

As nossas paróquias, sobretudo a de São João Baptista, tiveram com ele, tanto quanto sei, alguns contactos relativamente esporádicos em algumas vezes que ele veio substituir um dos nossos padres que por qualquer razão não podia estar presente (o que costuma acontecer sobretudo por conta dos fins de semana Alpha), nas muitas celebrações ecuménicas que se celebraram na igreja de São João Baptista, e em algumas atividades relativas ao Arciprestado de Coimbra Urbana, sobretudo no tempo em que ele era arcipreste.

No entanto, era um homem que não passava despercebido e que marcou muitos das nossas comunidades paroquiais. Por essa razão, entendemos por bem fazer uma pequena recolha das partilhas que alguns irmãos fizeram nas redes sociais (todos estes textos são públicos e com parâmetros de privacidade abertos ao público em geral, razão pela qual nos sentimos no direito de os reproduzir aqui).

Não se trata de um levantamento exaustivo, dado que esse ocuparia muitas páginas. Mas é, com certeza, um levantamento significativo através do qual queremos também exprimir a nossa amizade e solidariedade com a comunidade irmã de Santo António dos Olivais, a cuja freguesia aliás pertencemos.

Uma última homenagem ao Frei Domingos
Eu precisava de escrever isto. Foi há 4 dias, dia 26 de outubro, pelas 7h da tarde, que partiu para o Céu o nosso querido Frei Domingos. Ainda não dá bem para acreditar… Não consigo parar de me lembrar do sorriso rasgado que ele trazia sempre na cara, do brilho que lhe dançava nos olhos, daquele seu jeito de falar, meio português meio italiano…

Ele estava em tudo. E sempre com aquela simplicidade e humildade de se fazer pequenino. E marcou, marcou muitos corações… Era um homem bom, era verdadeiramente um homem de Deus. Olho agora para trás e só consigo agradecer todos os momentos que vivi ao seu lado e a que, na altura, nem dei assim tanto valor… Confissões e missas no Colégio, missas na Sé Nova com padres de todo o lado, missas na paróquia de São João Baptista… O Frei Domingos estava lá sempre, em tudo. E o seu sorriso maroto não passava despercebido, o seu carinho pelos pobres era notado, a sua forma de ser contagiava qualquer um, as suas gargalhadas sonoras enchiam uma sala (e uma igreja!!)…

Que bonita que foi a sua vida… Tão cheia de… Deus!! Dei por mim a pensar nisso durante toda a missa. A Sé Nova cheia, com tanta gente de tantos lados que quis fazer uma última homenagem a este tão querido Frei Domingos, “redondo” e sorridente. E foi tão bonito… Pode parecer esquisito, era só um funeral de um padre, mas emocionei-me várias vezes… É estranho, gostei mesmo deste funeral… Com sabor a eternidade…

E nós cá continuamos, com a sua voz inconfundível a ecoar nos nossos ouvidos e corações, a dizer “a vida eterna começa aqui” (foi a sua homilia da última vez que celebrou em São João Baptista…). E ele foi antes de nós, a mostrar-nos um bocadinho melhor como se chega a esta Vida…

Querido Frei Domingos, finalmente pôde ir para o Céu, do qual falava com os olhos a brilhar… Finalmente pôde ir para os braços do seu “Papá”… Com a certeza de uma vida bem vivida. Obrigada por tudo, querido Frei! O Céu deve estar a sentir-se com sorte…! E até um dia!

Isabel Caetano, estudante universitária

Sublime! Que humildade!
Frei Domingos, sentimos a sua falta, o seu sorriso, o seu olhar, o seu amor por todos nós!

Estará sempre presente nos nossos corações!

Até um dia Frei Domingos!

Tive o privilégio de conhecer um Homem verdadeiramente bom, que me recebeu em confissão, sempre com um sorriso!

Nunca esquecerei a minha preparação para o Crisma, com os seus sábios conselhos, acutilantes reflexões, um mundo novo para mim!

Que eu possa continuar a receber as suas bênçãos!

Até um dia!

Pedro Pestana, pai de família

As palavras que tardaram a sair…
Acompanhar o Frei Domingos nesta fase de doença foi um grande desafio, mas também um tempo de graça que me permitiu conhecer em profundidade um verdadeiro Homem de Deus!

“Os desígnios do Senhor são insondáveis” – uma grande lição de humildade enquanto profissional de saúde. Não podemos tudo, não sabemos tudo, não podemos salvar todos…

Mas o Frei Domingos teve o privilégio de saber, com a devida antecedência, que a partida estava próxima. Disse-me várias vezes ao longo deste percurso – quero descansar nos braços do meu Papá! Não há nada melhor!

Particularmente na última semana, viveu momentos de grande proximidade com Deus, experiências muito místicas, transcendentes… Abriu o seu coração aos mais próximos, a sua alma tornou-se ainda mais pura e límpida, nada ficou por dizer…

Leva uma grande preocupação: o clericalismo que se vive na Igreja, uma praga que o fazia sofrer e temer o pior. Fica este legado do nosso querido Frei Domingos, para padres e leigos. Que tenhamos todos a coragem de refletir e encontrar novas formas de ser Igreja.

Tinha um grande sonho: construir uma Igreja verdadeiramente sinodal, fraterna, em que caminhamos todos juntos, lado a lado, com Cristo no centro, ao encontro das periferias – os mais pobres, frágeis, excluídos da sociedade, os seus preferidos. Na cama do hospital, sonhámos juntos esta Igreja em saída, com uma fé incarnada na própria vida, transformada em serviço e entrega total ao próximo.

Uma mensagem para todos, que me repetiu até à exaustão, agora ampliada pela experiência da sua própria fragilidade e sofrimento: “TEMOS UM DEUS QUE NOS AMA INCONDICIONALMENTE, APESAR DE TODAS AS NOSSAS FRAGILIDADES, ERROS, CULPAS, DIFERENÇAS… TEMOS UM DEUS QUE NUNCA NOS DEIXA SÓS!” Isto precisa ser dito Sílvia, só isto importa! (percebi a mensagem, sabe que eu gosto de comunicar…).

Foram muitas as confidências, pedidos, promessas… Ainda me sinto esmagada por tanto que recebi, mas também, por tanto que prometi!

Promover a humanização dos doentes e profissionais de saúde nos CHUC, lutar por uma Igreja sinodal, dar voz ao papel da mulher nos processos de reflexão e decisão da Igreja, olhar pelos mais frágeis… PROMETE-ME SÍLVIA!

Hoje, sinto-me terrivelmente só, incapaz de lutar.

Mas ficaram gravadas, no mais fundo do meu coração, as palavras exageradas com que me descreveu. Ao ver o meu ar incrédulo, pediu-me para acreditar e nunca esquecer o que me estava a dizer. Tentarei cumprir o seu pedido… mas suplico pela sua INSPIRAÇÃO!

Até já, Frei Domingos! Bom descanso!

Sílvia Monteiro, mãe de família
(e médica cardiologista que acompanhou o Frei no hospital)

Um homem bom
Uma das melhores pessoas que tive a felicidade de conhecer partiu hoje. Certa vez, pouco antes da pandemia, passamos uma tarde quase inteira a falar do Céu 😉

Muita gente terá muito a dizer deste homem que tocou tanta gente: a mim impressionava-me a sua disponibilidade para o outro – quando estava com ele podia ser com tempo e sem me sentir de modo algum julgado. E nem por isso era um homem que deixasse muitas coisas por dizer…

Descansa agora na paz do Senhor que serviste com tanto amor e dedicação, frei Domenico Celebrin

Paulo Farinha Silva, pai de família

“Do coração daquele que crê em mim, hão de nascer rios de água viva.” João 7,38
Frei Domingos era o exemplo vivo deste versículo. Do seu coração transbordavam águas de sementeira, de refrigério, de alegria, de irreverência, de uma profunda espiritualidade. O riso alto e contagiante, a fé posta em ação, a entrega, o sentido de missão era um rio de testemunho que nos envolvia e nos empurrava a ir até onde o Senhor nos mandasse.

Foi neste rio transbordante de determinação e serviço, que navegou o movimento ecuménico da zona centro, liderado pelo frei Domingos desde 2005. Nas frias noites de janeiro, inventou a caravana ecuménica, desafiando católicos e protestante a estarem presentes todas as noites nas celebrações da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Nas reuniões de preparação e nas celebrações, éramos filhos de Deus com diferentes sensibilidades unidos no mesmo coração. O Movimento Ecuménico da Região Centro tem uma dívida de imensa gratidão pelo exemplo deste nosso querido, tão querido irmão.

“Sabemos que há tempo para todo o propósito debaixo do céu… que há tempo de nascer e que há tempo de morrer.” Mas este golpe cortou a nossa alma e sentimo-nos órfãos. Verdadeiros filhos de Deus, entram na nossa vida e por privilégio imensurável mudam a nossa trajetória, ficam no nosso coração, fazem a diferença, marcam a nossa vida e jamais serão esquecidos.

Que privilégio, que bênção, que lágrimas de alegria estão hoje nas nossas vidas porque conhecemos o nosso frei Domingos. Paz e bem, para sempre estarão escritos nos nossos corações.

Maria Eduarda Titosse, pastora da Igreja Evangélica

Deixar uma resposta