Folha Paroquial nº 187 *Ano IV* 26.09.2021 — DOMINGO XXVI DO TEMPO COMUM

Folha Paroquial nº 187 *Ano IV* 26.09.2021 — DOMINGO XXVI DO TEMPO COMUM

Os preceitos do Senhor alegram o coração.

A folha pode ser descarregada aqui.

EVANGELHO ( Mc 9, 38-43.45.47-48 )
Naquele tempo, João disse a Jesus: «Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco». Jesus respondeu: «Não o proibais; porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós. Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa. Se alguém escandalizar algum destes pequeninos que crêem em Mim, melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós movidas por um jumento e o lançassem ao mar. Se a tua mão é para ti ocasião de escândalo, corta-a; porque é melhor entrar mutilado na vida do que ter as duas mãos e ir para a Geena, para esse fogo que não se apaga. E se o teu pé é para ti ocasião de escândalo, corta-o; porque é melhor entrar coxo na vida do que ter os dois pés e ser lançado na Geena. E se um dos teus olhos é para ti ocasião de escândalo, deita-o fora; porque é melhor entrar no reino de Deus só com um dos olhos do que ter os dois olhos e ser lançado na Geena, onde o verme não morre e o fogo nunca se apaga».

 

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

Quem de nós já não se deu conta que um dia, a ouvir falar do sucesso de outra pessoa amiga, do reconhecimento que lhe foi dado na escola, na empresa, na Igreja, em vez de ficar contente e feliz por ela, paradoxalmente, não sentiu a alegria que era razoável que sentisse e, por vezes ficar mesmo irritado e deixar de ver naquela pessoa uma amiga? Às vezes a própria pessoa pode saber que é um sentimento que não devia ter mas não consegue evitá-lo. Enquanto for só um sentimento não há um grande mal pois os sentimentos não os podemos evitar. O pior é que, por vezes, não contrariamos os sentimentos e agimos conforme sentimos. Quando assim é, entramos numa espiral de tristeza, revolta, inimizades, vingança e rancor.

A inveja é um sentimento vivido na relação com outra pessoa e que traduz uma incompletude. É um sentimento de falta experimentado na comparação com a outra pessoa. Ela sente um forte desejo de possuir os atributos dessa outra pessoa; A sua beleza, a sua inteligência, os seus dons, o seu reconhecimento, o facto de ser respeitada, amada querida etc. Quando nos deixamos possuir pela inveja depois há uma torrente imparável de outros pecados que vêm juntos, é como um demónio que traz consigo uma legião. Por isso é que é chamado pecado capital, mas também podia ser chamado pecado-raíz, pois está na génese, na raíz de outros.

Esta introdução tem a ver com o que os textos de hoje nos apresentam sobre Moisés e Jesus. Moisés está numa situação de crise. O povo está farto do Maná e tem saudades das panelas de carne e das cebolas que comia à vontade no Egipto. E todos choram à entrada da sua tenda. Por outro lado, Deus, na expressão do livro dos Números, fica encolerizado com o povo. E Moisés tem o povo que chora e Deus que está triste com o povo que não quer lutar para ser livre. Moisés queixa-se então a Deus do fardo que Ele lhe Pós ás costas que é demasiado pesado para Ele e pede que o tire da terra dos vivos.

Deus pensa então em dar-lhe uma equipa de homens que leve com Moisés o peso da responsabilidade pastoral de uma forma partilhada. Podíamos chamar-lhe hoje uma equipa de liderança. Moisés escolhe 70 homens com dons e competências diversas para o ajudar na responsabilidade do povo, não apenas como tarefeiros, mas com uma responsabilidade partilhada. No dia marcado os homens estão reunidos na Tenda e Deus vem dar-lhes o Espírito que até aí habitava só em Moisés. Mas houve dois deles que não compareceram ficando no acampamento. Quando o Espírito foi derramado não só os que estavam na tenda o receberam, mas também os outros dois que ficaram no acampamento. Então Josué pede a Moisés para os proibir de fazer parte da equipa escolhida por Deus para liderança do povo. O mais encantador é que Moisés sabe discernir a inveja no coração de Josué e diz-lhe: «Estás com ciúmes por causa de mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre eles!»
Nesta resposta vemos o coração grande de Moisés! Ele não está nada preocupado consigo, com a sua grandeza, com o seu estatuto ou com a sua glória. Ele só quer o bem do povo! Que seja bem servido.

Mais ainda! Ele não exclui ninguém no seu coração. Muito antes de se ter um conceito de democracia já Moisés parece exprimir o desejo de que todo o povo, sem exceção, beneficie dos dons de Deus.

O profeta Joel, mais tarde virá afirmar que isso se irá realizar n’Aquele dia em que todo serão cheios do Espírito Santo. A Igreja viu no Pentecostes a realização deste desejo de Moisés e da profecia de Joel.

Moisés manifesta-se como um verdadeiro líder e pastor do seu povo. Alguns versículos mais em baixo, no mesmo livro dos Números é dito: «Moisés era um homem muito humilde, mais do que nenhum homem sobre a face da terra»(Num 12,3) E a prova é que ele se alegra sinceramente de não ser mais o único a suportar o peso da responsabilidade e ter outros consigo para partilhar o governo do povo e de não ter mais o monopólio da liderança. Ele sabe que agora, além de escutar a voz e Deus, deve ouvir os outros e decidir solidariamente e não sozinho. Aceita com humildade não controlar tudo pois o povo não lhe pertence, mas pertence a Deus. Imaginemos, por instantes, que Moisés caía na tentação de ver os outros como concorrentes e que lhe poderiam tirar a sua liderança e apreço junto do povo! Adivinhamos os problemas, as divisões, as discussões e contendas que daí adviriam? Muitas guerras que acontecem hoje vêm daqui: Uma questão de poder ameaçado.

No evangelho temos uma atitude semelhante à de Josué da parte de João que fala em nome dos outros discípulos: «Mestre nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco». E Jesus responde de forma semelhante a Moisés:” Não o proibais; (…) Quem não é contra nós é por nós» Jesus reprova o espírito exclusivista dos discípulos.

Muitas vezes os líderes têm receio de partilhar a sua liderança porque temem perder o controle das coisas. A razão é que podemos ter a tentação de sermos proprietários do povo e não servidores. O medo pode paralisar-nos quando nos sentimos ameaçados e então pode haver a tentação de continuar numa liderança a sós onde todos perdem e as coisas não avançam.

Na Diocese de Coimbra já há alguns anos foi pedido aos párocos que se rodeassem de uma equipa de liderança a que se chamou de «equipa fraterna de animação pastoral». As orientações diocesanas explicam que se trata de “um órgão local de corresponsabilidade eclesial, de âmbito paroquial ou de unidade pastoral, que programa, dinamiza, anima, acompanha e avalia tudo o que diz respeito à vida da respetiva paróquia ou unidade pastoral.” As suas competências são: “escutar, observar, reler na fé os acontecimentos que marcam a vida pastoral da comunidade (paróquia, unidade pastoral ou outra), na relação com as orientações diocesanas e com o mundo que a envolve, discernir e dinamizar a ação pastoral local.”

A equipa de animação pastoral de S. José-S. João Baptista, formada por 9 pessoas, reúne com o pároco todas as terças-feiras e tem sido uma bênção para este que se sente muito apoiado nas competências diversas dos seus membros que trazem para a equipa “maneiras diversas de ver as coisas” que só podem enriquecer o serviço das comunidades.

Mas existem na paróquia muitas equipas de liderança dos diversos grupos com um responsável à frente. A equipa Alpha de cada paróquia, a equipa de catequistas, a equipa dos líderes de células, a equipa de casais, a equipa dos líderes do escutismo, do ASJ e outras. O exemplo de Moisés pode fazer-nos refletir a todos pois ninguém está isento das tentações de poder que criam agendas escondidas, críticas silenciosas e depois abertas, geram tristeza e desalento e matam relações que eram de amizade e fraternidade.

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