Folha Paroquial nº 179 *Ano IV* 04.07.2021 — DOMINGO XIV DO TEMPO COMUM

Folha Paroquial nº 179 *Ano IV* 04.07.2021 — DOMINGO XIV DO TEMPO COMUM

Os nossos olhos estão postos no Senhor,
até que Se compadeça de nós.

A folha pode ser descarregada aqui.

“EVANGELHO (Mc 6, 1-6)

Naquele tempo, Jesus dirigiu-Se à sua terra, e os discípulos acompanharam-n’O. Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes estavam admirados e diziam: «De onde Lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que Lhe foi dada e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos? Não é Ele o carpinteiro, filho de Maria, e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E não estão as suas irmãs aqui entre nós?». E ficavam perplexos a seu respeito. Jesus disse-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua terra, entre os seus parentes e em sua casa». E não podia ali fazer qualquer milagre; apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos. Estava admirado com a falta de fé daquela gente. E percorria as aldeias dos arredores, ensinando.”

MEDITAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS

NÃO PODIA FAZER ALI QUALQUER MILAGRE

A narração do evangelho, hoje escutado, vem no seguimento direto da narração dos milagres proclamados no Domingo passado, em que Jesus ergue da morte a filha de Jairo, uma menina de doze anos, e cura a mulher com um fluxo de sangue que já tinha gastado todo o seu dinheiro nos médicos e nada tinha conseguido. Esta, não podendo chegar à fala com Jesus, toca-lhe no manto, pensando que isso será suficiente para ser curada. E foi-o imediatamente. Ao terminar a jornada, Jesus devia estar contente e até, como noutras ocasiões aconteceu, a exultar de alegria sob a ação do Espírito Santo pelo desígnio do Pai de revelar aos pequeninos o mistério do seu amor salvífico. Mas a vida missionária de Jesus também teve reveses, insucessos e tristezas. Hoje, o evangelho fala-nos de um desses dias nada feliz.

Jesus partiu dali para a sua terra, Nazaré, e entrou na Sinagoga, pondo-se a ensinar. S. Marcos não nos diz o conteúdo do ensino, ao contrário de Lucas que nos informa que Ele pegou no rolo do livro do profeta Isaías e leu a passagem em que estava escrito: “O Espírito de Deus está sobre mim porque Ele me ungiu e me enviou…”, e depois termina dizendo: «Esta passagem da Escritura cumpriu-se hoje.» A sabedoria com que Jesus fala deixa toda a gente da sua terra espantada. Era imbatível. Mas uma pergunta se levanta: – Donde Lhe vem esta sabedoria e a capacidade de realizar maravilhas? Não O conhecemos nós de ginjeira? Não é Ele o Filho de Maria? – pergunta anormal no tempo de Jesus, pois um filho nunca era conhecido pelo nome da mãe, mas do pai – S. Marcos, ao escrever “Filho de Maria”, quer fazer referência ao seu nascimento virginal, isto é, ao facto de Ele ter sido gerado pelo poder do Espírito Santo.

O núcleo da mensagem do texto está, porém, na incredulidade dos seus conterrâneos, mostrando-nos o contraste com os milagres feitos anteriormente com a filha de Jairo e a mulher com fluxo de sangue e, agora, não conseguir ali fazer nenhum milagre. “Estava admirado com a falta de fé daquela gente.”

Esta passagem contém um tema sempre presente no evangelho de S. Marcos: Quem é Jesus? Qual a sua profunda identidade? Os seus conterrâneos e parentes, em Nazaré, podem conhecer o carpinteiro, o filho de Maria, o irmão de Tiago e de José, de Judas e Simão e de todo o outro parentesco, mas não conhecem Jesus, o Filho de Deus. Ontem, como hoje, muitos podem dizer muita coisa acerca de Jesus, mas só pela fé poderemos ser capazes de chegar à identidade profunda de Jesus que Pedro dirá em nome de todos quando Jesus lhes pergunta: «E vós, quem dizeis que eu sou?» – «Tu és o Messias, o Filho de Deus». Jesus dirá, então, que afirmar aquilo não lhe vem das suas faculdades naturais (da carne e do sangue) mas da revelação do Pai que está nos céus.

Nesta recusa dos conterrâneos de Jesus em abrir-se à fé, S. Marcos prenuncia já a rejeição que o seu povo fará de Jesus, mas reflete também e tenta explicar a situação da comunidade para a qual escreve. Enquanto muitos dos primeiros cristãos eram judeus, o crescimento e florescimento do cristianismo deu-se entre os povos pagãos que aceitaram Jesus. A comunidade de Marcos era constituída maioritariamente por gente vinda do paganismo, que vinha fazendo a experiência da perseguição. S. Marcos, mostrando que o próprio Jesus foi rejeitado, tenta consolar e fortalecer os seus primeiros leitores. Mas, através desta palavra, o Espírito que a inspirou prepara-nos também a nós, evangelizadores de hoje, a que aceitemos estas possíveis consequências de ser discípulos de Jesus, isto é, estarmos preparados para a rejeição, para a recusa em acreditar, para corações que se fecham.

Na nossa vida, como na de Jesus, há dias felizes em que vemos a ação da graça de Deus e da semente da palavra a produzir abundante fruto nos corações e, outros dias muito áridos, em que «ficamos admirados com a falta de fé daquela gente».

Mas porque é que Jesus não conseguiu ali fazer milagres? Sendo esta obra do poder de Deus, supõe a nossa colaboração, a nossa fé. «Foi a tua fé que te salvou», diz Jesus muitas vezes. Ali, ao contrário, os seus conterrâneos não eram capazes de ver em Jesus mais do que o seu vizinho, igual a eles em tudo, mas que aparecia com uma sabedoria maior e que os tornava até invejosos por pretender ser maior do que eles. Sem fé e confiança em Deus, não podemos ver a sua glória na nossa vida. Nós é que possibilitamos a graça de Deus quando nos dirigimos a Ele cheios de humidade e confiança. Se não esperamos nada de Jesus porque não acreditamos no seu poder, não receberemos nada.
Jesus disse um dia a Marta, irmã de Lázaro: «Se tu crês, verás a glória de Deus.» Que Ele dê a cada um de nós esta fé viva no seu poder divino que lhe permita fazer em nós todas as maravilhas do seu amor.

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